Diferente de alguns filmes de estúdio do inicio da década de 40, Pérfida inscreve-se como um livre drama com toques de suspense – uma história compromissada em fazer o público sentir raiva, pressão, e nunca fazer com que cheguem a se aproximar de qualquer protagonista. A face central do filme, Bette Davis, é, na verdade, uma bela antagonista. Não somente à sua filha e marido, mas a todo um plano familiar de boas intenções que deseja romper para chegar ao comando dos negócios. Seu circulo de vida não se resume às pessoas de dentro de sua bela casa – pessoas próximas que, acredita-se, não dariam muita importância a uma mulher, levando em conta a época –, mas a toda uma sociedade assistindo-a e à qual ela pretende fugir depois de enriquecer. Uma cena em especial mostra suas opiniões sobre ir embora da região onde vive com a família; diz preferir Chicago, ou qualquer grande cidade próspera do pós-guerra civil, de maior concentração econômica.
Regina Giddens, não demora muito, aparece como alguém fora de sua época. Talvez por isso o filme de William Wyler prende-se bem ao tempo, como um drama contemporâneo sobre a cobiça familiar. A maldade flui aos poucos até assumir um lado dominante sobre o todo, capacitando sua personagem a sobrepor-se contra o sistema machista de sua época. A propósito, durante todo o filme ninguém ousa contestar sua força, como se fosse parte fundamental para que os negócios corram bem. Laços pretendem se formar entre Regina e seus dois ambiciosos irmãos; o marido dela, por sua vez, nada sabe sobre a trama e é chamado para mostrar sua opinião – esta, essencial para a feitura do negócio. Vivida por Davis em seus melhores dias, em um período fértil após sucessos como Jezebel e A Carta (ambos de Wyler), a proposta é fazê-la na formação de vilã entregando seus pontos aos poucos; constrói, primeiramente, a face da mulher sulista, camponesa e desiludida pela falta de oportunidades. Tudo isso descarrega na conclusão – sendo que, perante a esse excesso de desilusão, nasce um dos grandes vilões do cinema clássico americano. O papel de marido, Horace Giddens, foi entregue sabiamente a Herbert Marshall, interpretando um banqueiro interiorano na fase final de sua vida. E como convencer um homem à beira da morte de que dinheiro é o mais importante? Todos da cúpula de Regina pretendem fazê-lo acreditar nisso, e fracassam.
Bem Hubbard (Charles Dingle) e Oscar Hubbard (Carl Benton Reid) são os irmãos de olho em um negócio certeiro, podendo alcançar, segundo um deles, a marca de um milhão. Regina deve convencer seu marido – antes ausente e de volta a casa para a concretização do negócio – que 75 mil dólares é a quantia viável para o investimento. Dentro do interior difícil das relações propostas pelo roteiro de Lillian Hellman, baseado no livro de sua autoria, a mulher pretende dominar seu marido pelo cinismo e falsidade; ele, desta vez, sabe muito bem com que está lidando. A calma do homem acamado depara-se com a fúria interna e escondida da personagem de Davis – o decorrer cai nas injustiças e apelações. Ela tem a oportunidade de matá-lo ao negar ajuda ao mesmo, necessitando de seus remédios, o que leva a trama ao seu clímax na agonizante seqüência em que Regina assiste seu marido sofrendo de problemas cardíacos.
A angelical Teresa Wright interpreta Alexandra, filha da vilã e esperança na história da família Giddens. Renegando sua mãe, a moça aceita os caminhos incertos fora da vida familiar. Não tem opções. Pode perder o pai, casar-se com um rapaz mal visto pela mãe e ainda perceber, depois dos conflitos finais, sua estada no local errado – sua própria casa. A tia, vizinha da mansão, tem algumas recaídas; ao conversar com Alexandra diz que seu filho, Leo Hubbard (Dan Duryea), não é a pessoa certa para ela. Em Pérfida, nem sempre os desequilibrados são desprovidos da razão. Quem tenta se aproximar de Alexandra é o jovem jornalista David Hewitt (Richard Carlson), percebendo, antes de Horace chegar à cidade, uma movimentação na casa dos Giddens, sobre a possível união dos sulistas camponeses com um investidor da cidade. Daria uma boa matéria em seu jornal, e, ao contrário do que diz sua vontade profissional, uma matéria do tipo poderia custar seu emprego.
Todos esses vários personagens constroem, antes de Davis assumir o centro das atenções, uma espécie de painel de uma sociedade burguesa a se formar. Os tipos são nítidos: homens arrogantes e sem escrúpulos; mulheres aproveitadoras, vestidas com roupas da alta sociedade; e os vários empregados da casa, sempre com alguns palpites sobre os convidados e conversando paralelamente na cozinha da casa – característica que aproxima o filme de Wyler, além do período de reconstrução pós-guerra civil, de E o Vento Levou, drama modelo para projetos como Pérfida. No inicio do século XX, as famílias tentavam enriquecer ainda, boa parte, baseadas na agricultura. Muitas pessoas, devido à expansão das cidades e seus comércios, tentavam a migração para as metrópoles como uma saída. Esse é o caso de Regina, não só dizendo suas necessidades claramente, mas também tentando ir embora com dinheiro suficiente para sua independência. Casou-se com um banqueiro do interior do país para tentar, ao menos (e isso ela mesmo confessa), sair de uma situação antes pior. Seus medos de vilã não aparecem aos homens ao longo da fita e tem a pretensão de rir das outras mulheres, vê-las através de uma visão panorâmica, de superioridade. Talvez a vilã mais forte vivida por Davis, transpirando força e vivacidade, essa matriarca da família Giddens impede sua filha de seguir seus passos devido aos seus erros – estes, em determinado ponto, aparecem muitos claros, visíveis até mesmo à bondosa filha.
O diálogo entre ambas, na despedida, é a destruição da imagem da família em uma época em que não se pensava nisso. Original em seu crescimento e desfecho, o roteiro provoca arrepios com seus diálogos diretos. Mães reclamam dos filhos, dizem não gostar deles; esposas desejam o fim de seus maridos; homens de negócios praticam roubos com a ajuda dos filhos, que, nesse caso, trabalha num banco, para fazer tudo correr como pretendem – tudo em nome da prosperidade do sul. Confrontando os desafios de fugir à imagem à qual antes pertencia, Alexandra consegue encaixar os fatos após pensar em seu pai, e porque este, pouco antes, estaria caído justamente na escada. Enquanto sua mãe suborna os próprios irmãos, os ladrões do filme, a moça passa a perceber o inferno familiar centralizado ao meio de sua casa, numa bela sala com um piano ao canto. Sua saída pela porta da frente, compondo a articulação final junto do rosto amargo da mãe deixada para trás, emite um sinal sempre presente no filme de Wyler – a família deixa, aqui, de contribuir à construção de um país forte, com futuro. E essa visão, ao ser levado em conta o momento e seu desenrolar, é uma das coisas mais tristes a serem inseridas nos Estados Unidos em novo nascimento.










